O tal do passing

 Já tive vários momentos em minha vida que queria apenas dormir e acordar branca. Na infância, na adolescência, na vida adulta. A paz comigo mesma só chegou após os 30 - mas não em toda plenitude, confesso. Ainda tem momentos que penso que seria mais fácil ser branca. Acho que teria mais amor na minha vida, caso eu dormisse e acordasse branca. Então que eu leio livros sobre passibilidade branca (passing) e meio que entendo o que leva aquelas personagens principais a fingirem ser brancas, já que a cor da pele delas permite. É ambígua a sensação e me causa certo medo quando estou lendo: ao mesmo tempo que entendo, eu não concordo; ao mesmo tempo que compreendo, eu fico com raiva.

Bom, então que eu li essas duas histórias: comecei com o clássico estadunidense, Identidade, da Nella Larsen, e agora, agorinha mesmo acabei de ler (o também estadunidense) A metade perdida, da Brit Bennet. Mais de 80 anos separam as duas obras e acho que, no final das contas, isso importou muito para a percepção que tive das duas. Gostei muito mais da obra atual do que de Identidade, mas meus motivos não são nada racionais para justificar a preferência, foi só questão de gosto mesmo.


Vejam, igual tá ali no meu primeiro parágrafo: eu consigo entender as problemáticas em uma sociedade racista que leva uma pessoa se passar por branca pra viver com o mínimo de dignidade. Consigo até entender o abandono dos familiares negros, visto que não dá pra se passar por branca com uma família inteira negra (em Identidade é até mais justificável esse abandono que em A metade perdida). O que não consigo entender é a pessoa que se passa por branca e, mediante isso tudo, sabendo da própria negritude, decide por reproduzir racismo para não ser descoberta.


Esse foi meu principal problema com a Stella, de A metade perdida. A história é sobre irmãs gêmeas, filhas de uma negra de pele clara e um branco, que fogem quando adolescentes de uma cidade pequena em busca de uma vida melhor e com mais opções. Ao chegar na cidade grande, as irmãs passam por todos os perrengues possíveis porque né, a vida é essa sucessão de 7x1 e uma delas - a Stella - decide abandonar a própria irmã e fingir ser branca para se casar com um branco rico. Tudo isso nos anos 60, bom destacar.



Ao longo do livro, vemos flashs da vida da Stella e da Desiree (a outra irmã), assim como de suas próprias filhas, que tem idades próximas. Temos uma enxurrada de temas no livro: racismo, feminismo, LBTQIA+ e por aí vai. Apesar de tratar de várias temáticas, o texto não fica cansativo e tudo é apresentado de forma bem natural, inclusive. Não tem nenhum momento de "ok, agora vamos falar de transfobia". É vida que segue mesmo; porém nada de forma jogada. E bem por isso que gostei mais de A metade perdida do que de Identidade. Identidade me pareceu um texto mais educativo sobre ~ vamos falar sobre racismo? ~. Tem um caráter tão folhetinesco que a moral da história tá lá explicadinha e a personagem que se passa por branca tem até um final bem Nazaré Tedesco.

Apesar de torcer diversos momentos para uma queda na escada da Stella pois ela cansou de REPRODUZIR RACISMO O TEMPO TODO, ela não tem um final triste. Talvez também não tão feliz assim porque se a gente avaliar com cuidado percebe que uma vida de mentiras é um dos piores castigos que pode existir pra alguém, certo? Por mais clichê que possa parecer, não há dinheiro que realmente compre a paz consigo mesmo e o desejo de dormir e acordar branca só desaparece naqueles que primeiramente tem coragem de se assumirem negros. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

12 livros para ler em 2023

Jogos Vorazes, mas sem tanta política e com muito tiro na cara: Battle Royale